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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Alforria






Alforria


A senzala, a pouco adormecida, Inda ouve do açoite o sibilo. 
Lacerando a carne e sentimentos, deixa na alma maior ferida, 
Forja tão profundo sofrimento, que unguento não cura ou alivia, 
O orgulho sufocando o grito, em silencio suas  lagrimas continha.
Rangendo os dentes se contorce, e o corpo lacerado enrijecia,
Rumina ódios e deles se alimenta, torna se forte a cada castigo,
Imagina quando virá o alivio, no halito úmido e fresco de bruma,
A sussurrar, a mucama ceifeira diz em seu ouvido, "Liberdade !"                




Urano de Sousa, Natal de 2012

Julia e o Natal



Julia e o Natal




Seu nome era Julia, uma agregada da família, filha de uma cabocla moradora de uma fazenda distante, mas que conhecia o casal a quem deu a filha como afilhada e lhes entregou para que a criasse, fato comum nestas redondezas e naqueles tempos, ficou feliz, por assim garantir uma vida melhor para a filha. 

Julia cresceu na rudeza da vida da roça, ajudava na cozinha e na lavoura, lavava roupas no riacho que passava ao lado da casa, esfregava aqueles andrajos cheios de remendos, roupas da família e de algum camarada que também era agregado, roupa toda lavada, esfregada a mão e para soltar a sujeira, tinha que ser batida na pedra e posta para coarar ao sol, trabalho duro, depois ia para a cozinha fazer qualquer coisa que pudesse para ajudar, o que era sua obrigação. 

Vestia sempre roupa escura, nada de saia e blusa, apenas vestidos feitos por alguma costureira das redondezas, com péssimo corte e arremate, pés sempre descalços, cabelos tratados com babosa, facilitava a tarefa de pentear e lhes dava certo brilho e os unia, estavam sempre presos por lenços, ou amarrado por um nó na parte posterior acima da nuca, em (pitote). Vez em quando, aos domingos, fazia uma trança, isto quando a casa não se enchia de parentes que vinham para o almoço, lhe tirando o seu descanso, e pior, fazendo do domingo um dia mais cansativo que os dias normais de semana, mas ela não reclamava, há anos que era assim. 

Fora disto, os domingos, eram propícios para uma outra atividade muito necessária, a catação,atividade que era dedicada a eliminação de um incomodo chamado piolho, com este objetivo, sentava-se ao sol no terreiro, cabeça envolta por um grande pano branco que não deixava ver um só fio de cabelo, previamente encharcado com querosene para estontear os piolhos, facilitando sua caçada, que era feita frequentemente, e era tão normal , quanto almoçar ou dormir, natural. 

Quando os bichos estavam agitados, soltava se os cabelos, repartidos em duas partes, uma para frente sobre o rosto, que fixava se sobre as pernas cobertas por um tecido branco, e a outra sobre as costas. Daí começava a longa tarefa de passar exaustivamente o pente fino, desde a raiz dos cabelos, raspando rente ao coro cabeludo, até as pontas, parando sobre o pano que ia ficando coberto de “pontinhos pretos”. 

Esta tarefa era sempre executada à quatro mãos e olhos, era preciso contar com a ajuda de alguma amiga ou mesmo parente, que cuidasse da parte alta e traseira da cabeça, onde Julia não podia ver, a amiga, ao iniciar cada passagem do pente, apertava o bem rente, e puxava de forma continua , arrancando não só os bichos, mas também contorções e gemidos, que punham lagrimas nos grandes olhos da Cabocla. 

_ Tá doendo?
 
_ Não, mentia

_ Pode continuar assim mesmo.

_ Tá bom, respondeu a outra.


E assim foi, até não se ver mais vestígios dos bichinhos , dando por encerrada a empreitada, pois a tarde já cedia lugar a noite

_ Pronto, Acho que tá bem limpo agora, concluiu a amiga, com o que Julia concordou aliviada.


Esta era a rotina dos domingos, quando as moças se reuniam, ou mesmo as mães e aos seus filhos, entre uma passada do pente e outra, vertiam as conversas, alguns segredos e sempre muitas gargalhadas. 

Fora estas ocasiões ela estava sempre acabrunhada, não sorria, pois vivia sempre com o rosto inchado, seus dentes, todos cariados e escuros pela falta do esmalte, já todo corroído, nunca visitou um dentista, ou melhor, nunca fora visitada por um, já que não saia daquele fundão para nada. Ficava sabendo de coisas da cidade quando as filhas de alguma visita por ali passando, floreavam lhe estórias que a tiravam do estado letárgico que se encontrava, experimentando um tremor naquele corpo rude, e seus olhos cresciam e brilhavam, denunciando seu entusiasmo, que passado aquele momento se recolhia ao seu mutismo. 

Estava prestes o Natal, e com isto, a casa ficava repleta, chegavam os filhos e netos de seus padrinhos, e assim ela se entretinha com os causos de Papai Noel, e dos presentes trazidos, que fariam a alegria das crianças. 

Na semana do Natal, ela não dormira direito, não de ansiedade, mas pela dor que incomodou a noite inteira, era uma das presas que cismou de reinar “justo agora”? “Reclamou em silencio”, enxaguou com salmoura e nada, pós lasca de fumo sobre o dente , a dor só piorava, fez todos os curativos conhecidos sem resultado, o rosto cada vez mais inchado e dolorido, amarrou uma compressa de fubá e sal, que nada, parecia só piorar aquela dor lancinante , e Julia agora gemia e chorava, andava de um lado a outro já em desespero. 

Os dias foram passando e a pobre criatura no escuro do quarto, gemendo, sem dormir a 3 dias, era surpreendida por um breve cochilo, que lhe trazia breve momento de descanso, e num deles, em desvario, chegou a ver o rosto do falado Papai Noel, que lhe sorria com uns dentes tão brancos como sua barba, uma brancura que ela sonhava para os lençóis lavados e alvejados com anil, ele foi se aproximando a ponto de sua barba tocar seu rosto, quando de sobressalto, acordou , e a dor ali estava, a lhe tirar a razão; estava esperançosa que com a infecção aumentando , viesse a supurar , trazendo lhe o alivio. 

Por aquelas bandas, passava de vez em quando uns mascates que traziam desde canivetes até conchas de alumínio, pentes de osso, espelhinhos ovais com fotos de moças na parte traseira para alegria dos rapazes, e tantos outros tarecos que pudessem ter utilidades e assim serem comprados. 

Ocorreu que um destes viajantes resolveu já num final de rota, passar por ali e aproveitando a época, trazia nas tralhas alguns brinquedos simples e baratos que pudessem ser comprados por aquelas famílias da região, sempre muito pobres; Ocorre que era comum alguns destes viajantes fazerem trabalhos de protéticos e para isto faziam algumas extrações, para poderem vender suas próteses, e eram a salvação dos povos do interior, que não tinham acesso a tratamento dentário, e muito menos tinham o habito de higiene bucal ( Escovação ), esta a maior causa dos sofrimentos com dores de dente, tão comum em regiões interioranas em passado não muito remoto. 

Um desses personagens, se “chamava “ Seu “Meireles”, era um desses “Tiradentes”, e foi justamente ele que chegou já num final de tarde na casa onde Julia morava, e a encontrou em desespero, puxou conversa para descontraí-la, e só tinha como resposta grunhidos como, hunn, hum, hãm, hãm , hum; de uma rápida olhada, ele percebeu a situação e penalizado com o estado da moça, pegou de seus pertences um boticão e sem muito rodeio, e sem anestesia, ( pois naquele caso não faria efeito) pôs se à suas costas, prendeu lhe a cabeça com uma mão, puxando firme contra seu corpo e com a outra apertou firme o aparelho sobre o dente, com a sua prática, bastou uns puxões e torções , e La estava ele, o vilão, o motivo de tanta dor, bem a sua frente, antes mesmo de se ouvir o urro de dor de Julia, mas o ultimo que aquele dente lhe causaria. 

Após tomar alguns comprimidos, a dor foi amainando e Julia conseguiu dormir aliviada, seu rosto desinchou, e mesmo com outros dentes precisando de cuidados, que ela escondia com a mão quando falava ou sentia vontade de rir, ela teve seu primeiro presente de Natal, um sorriso e uma alegria que nunca tinha experimentado. 

Meireles, nas outras viagens que fez, foi tratando de Julia, extraiu todos seus dentes e lhe colocou uma dentadura, que depois de se adaptar, fazia questão de rir por qualquer motivo que fosse, sorria sorrisos alvos, sem cobrir a boca, deixava se vir assim, escancarada, com aqueles dentes que ela viu em sonho, no sorriso de Papai Noel. 


Um dia, frente ao espelho, experimentando maneiras diferentes de sorrir, parou com ar pensativa e se perguntou, com o cenho franzido. 

– “ Será que Papai Noel também usa dentadura,?

Trejeitou os ombros e pensou “não importa “.

Fez um ar de riso, e foi para a cozinha, dar sequencia a sua

rotina.





Obs.  “Seu Meireles” e Julia são personagens verdadeiros.


Araçoiaba da Serra, Natal de 2012.
Urano Leite de Sousa


terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O Três

 O Três




Dizem que não sei contar, mas eu conto até três
Ate mil não sei mesmo, mas vou tentar uma vez
Poderá mesmo faltar, mas se faltar, não falta três
Se por desventura passar, como acontece  às vezes
Se em mil muito passar, vai passar menos de três
Veja os bichos nem contam, vive um dia por vez

Lembro que te conheci, só não lembro em que mês
Parece que foi em Março, que represento por três
Três semanas são bem pouco, pra interar um mês
Ficou faltando uma, somando em dias, mais três
 Se um dia não te vejo, parece que é mais de três
Tem  mês, não chega a tanto, no ano é uma vez

Até os meses do ano, se conta de três em três,
Todo mês têm alguns dias, marcados com o três,
Tem um mês que não tem, um só dia com três
O diabo tentou Jesus, e desistiu depois de  três,
O cantar daquele galo, ainda não eram  três,
Que  Pedro negou  Cristo, tá escrito, foi três.

O brilho da Estrela Guia, no Oriente desfez,
A dúvida dos Reis Magos, e também eram três,
Pra ver o Menino nascer,  perto de findar o mês,
Era o filho de Maria, para ser o Rei dos Reis,
Uma Sagrada Família, na estrebaria se fez,
Jesus, Maria e José; uma família com três.

Veja a idade  de Cristo, se escreve com dois  três.
E as Cruzes no calvário que também eram três
As etapas de uma missa, se somadas dá em três.
Veja o sinal da Cruz, clamando ainda por três.
Lembrando as Santidades, no Um estão as três.
Pai, Filho, Espírito Santo, É novamente o Três.

Cristo clamou pelo Pai, e de fato  foram três.
O dia da Ressurreição, que foi depois de três.
Três dias de sepultado, que a  aparição ele fez.
Abriu a porta do tumulo, o mistério ai se fez.
Mostrou as suas chagas e eram mais de três
Tomé não acreditava, acreditou dessa vez.

Isto foi a muito tempo, dois milênios já se fez
E embora eu não veja, logo vai chegar a três.
A história da humanidade, o homem assim fez,
Sempre escrita com guerras, pela sua estupidez,
Mundial já foram duas, e logo já chega a três.
O homem só não destrói a ignorância de vez

Ainda os livros Sagrados, que eu conheço são três.
O Alcorão, Torá, e a Bíblia, o antigo homem  fez.
Lidos a milhares de anos, são  bem mais de três.
E vieram as religiões, que já somam mais de três.
Que por elas soltam bombas, que acaba de vez,
Na crença que foi um Deus, que esses livros fez,

                           Descobrimento

O que dizer das Caravelas, que eram mais de três.
Vicente Coelho, Lemos Cunha, Diogo Dias,
Tovar Leitão e Miranda, A trazerem  o português.
Pedro Alvarez Cabral, o Comandante da vez,
Também era o seu nome, um conjunto de três,
E a História contempla somente o nome de três

Cabral, Caminha e Sardinha, a primeira Missa fez
Caminha escreveu à Corte, a primeira carta que fez,
Batizado de Brasil,  depois de duas vezes ou três,
Sob o símbolo da Cruz, esta grande Nação se fez,
Não se sabe mais de Cabral, que outras coisas fez,
Foi este grande feito, que imortalizou o Português.


Urano Leite de Sousa
Araçoiaba da Serra, 2011